Quando nem se falava em biopirataria, o Brasil já tinha sido vítima dela

Que o ciclo da borracha, foi importante para o Brasil e deixou muitas pessoas ricas no Norte do país, sobretudo Manaus e em Belém do Pará, é um fato conhecido. A borracha foi um dos principais produtos da economia nacional entre 1870 e 1920.

Que o declínio da borracha decorreu da concorrência da produção da Ásia, também é outro fato comentado.

Mas se a seringueira era uma planta nativa, genuinamente brasileira (veja só, seu nome científico é Hevea brasiliensis) se o Brasil detinha a quase totalidade das reservas mundiais de borracha, como é que surgiu um novo produtor e derrubou a produção nacional? Como o Brasil passou de exportador a importador de borracha?

Pois é. Essa parte da história não é muito contada, mas o Brasil foi vítima de biopirataria, já por volta de 1873. Entende-se por biopirataria “a exploração ilegal dos recursos naturais e apropriação indevida de conhecimentos tradicionais”. O botânico inglês Henry Wickham, após passagem pelo Brasil, rumou para a Inglaterra, levando por volta de 70 mil sementes brasileiras. Essas foram plantadas na Ásia e cerca de 40 anos depois, superaram a produção brasileira em quantidade, porque contaram com investimentos britânicos na produção, sob forma de extensas monoculturas. Em 1914, as plantações do Ceilão e da Malásia lançaram mais de 70 mil toneladas de borracha no mercado mundial.

Por volta de 1945, a extração de seringa retraiu ainda mais com o início da produção sintética de borracha. Embora a extração de látex e a exploração da árvore seringueira continuem sendo importantes fontes de renda para milhares de famílias, principalmente no norte do Brasil, o país hoje importa o produto para atendimento do mercado interno.

Segundo Marli Dias Mascarenhas Oliveira, pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola (IEA), ao Portal do Governo de São Paulo: “o Brasil já foi o maior produtor mundial de borracha natural, mas foi perdendo este posto a partir da década de 1950 e hoje é um grande importador deste produto do continente asiático, de países como Tailândia e Indonésia, por exemplo. Atualmente, 60% da necessidade brasileira de borracha natural é suprida por importação. O Estado de São Paulo é o maior produtor nacional, produzindo 60% de toda a borracha natural brasileira”.

A pesquisadora também destaca a natureza estratégica da borracha natural, obtida a partir do látex da seringueira, por ser produto muito utilizado na fabricação de pneus (motos, carros, caminhões e aviões), brinquedos, acessórios, calçados, autopeças e pelo setor de saúde, para fabricação de luvas cirúrgicas, seringas, cateteres e cápsulas.  “É um produto muito estratégico, principalmente pelo Brasil, que escoa toda a sua produção agropecuária e industrial por meio da malha rodoviária”, disse a Marli ao Portal do Governo de São Paulo.

Em 2019, segundo o IBGE, a produção de látex coagulado foi de 362.312 toneladas, em 166.714 hectares como área destinada à colheita. Comparativamente, verifica-se que a quantidade produzida de açaí, produto também extrativista, foi bem superior,  na ordem de 1.398.328 toneladas, em área de 196.319 hectares.  Como referido pelo Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais do Estado de São Paulo, o potencial de consumo de borracha no Brasil, em 2020, era de 500 mil toneladas, o que mostra a distância das curvas de produção e demanda interna. 

Notas: 

Biopirataria: Segundo o Instituto Brasileiro de Direito do Comércio Internacional, da Tecnologia, Informação e Desenvolvimento (CIITED),  “biopirataria consiste no ‘ato de aceder ou transferir recursos genéticos e/ou conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, sem a expressa autorização do Estado onde fora extraído o recurso, ou da comunidade tradicional que desenvolveu e manteve determinado conhecimento ao longo dos tempos”. (SOUZA, Joice Silva de. Biopirataria. Portal Infoescola, (s.d). Biologia. Disponível em:<https://www.infoescola.com/biologia/biopirataria/>. Acesso em: 25 ago. 2021.

Heveicultura: termo originado do nome científico seringueira (Hevea brasiliensis), refere o cultivo da seringueira para extração do látex.   (VOCÊ sabe o que é Heveicultura? Portal Cenagri Júnior, 21 jan. 2019. Disponível em:<https://www.cenagrijr.com.br/post/voce-sabe-o-que-e-heveicultura>. Acesso em: 27 ago. 2021.;  SABE o que é heveicultura:… Canal Rural, 03 jun. 2021. Disponivel em:<https://www.canalrural.com.br/programas/informacao/direto-ao-ponto/heveicultura-producao-borracha/>. Acesso em: 28 ago. 2021).

Saiba Mais:

A HISTÓRIA da seringueira : árvore que produz a borracha natural. Portal Pensamento Verde, [São Paulo], 21 fev. 2014. Meio Ambiente. Disponível em:<https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/historia-da-seringueira-arvore-que-produz-borracha-natural/>. Acesso em: 25 ago. 2021. 

BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. Convenção sobre Diversidade Biológica. Brasília, 2000. Disponível em:<https://www.gov.br/mma/pt-br/textoconvenoportugus.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2021.

BIOPIRATARIA. Portal Mundo Educação. Disponível em:<https://mundoeducacao.uol.com.br/biologia/biopirataria.htm>. Acesso em: 25 ago. 2021.

A IMPORTÂNCIA da Borracha Natural. Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais. Portal do Governo, São Paulo, [2020]. Disponível em: <https://www.iac.sp.gov.br/areasdepesquisa/seringueira/importancia.php#> Acesso em 27 de ago. 2021. 

CLAUDIO, Ivan. O homem que roubou a borracha do Brasil. Revista Isto é, 26 ago. 2011. Cultura. Disponível em:<https://istoe.com.br/154500_O+HOMEM+QUE+ROUBOU+A+BORRACHA+DO+BRASIL/>. Acesso em: 26 ago. 2021.

DOMICIANO, Fernando. Produtores e indústria de borracha natural têm novo índice de preços de importação. Portal do Governo, São Paulo, 28 abr. 2020. Banco de Notícias. Disponível em:<http://apta.agricultura.sp.gov.br/noticias/produtores-e-ind%C3%BAstria-de-borracha-natural-t%C3%AAm-novo-%C3%ADndice-de-pre%C3%A7os-de-importa%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em: 27 ago. 2021.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sérgio Faraco. Porto Alegre : L&PM Editores. 2010, p. 130-133. E-book. 

GONÇALVES, Rivadalve Coelho et al. Manueal de Heveicultura para a Região Sudeste do Estado do Acre. Rio Branco, Acre, 2013. Embrapa Acre, 2013. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/202202/1/24931.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2021.

IBGE. Produção Agrícola- Lavoura Permanente, 2019. Portal IBGE. Disponível em:<https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pesquisa/15/11888>. Acesso em: 27 ago. 2021.

MACEDO, Márcia. Ciclo da Borracha. Portal Educa Mais Brasil, 16 dez. 2019. Disponível em:<https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/historia/ciclo-da-borracha>. Acesso em: 26 ago. 2021.

MARTIN, Nelson Batista; ARRUDA, Sílvia Toledo. A produção brasileira de borracha natural: situação atual e perspectivas. Informações Econômicas, São Paulo, v. 23, n. 09, set. 1993. Disponível em:<http://www.iea.sp.gov.br/ftpiea/tec1-0993.pdf>. Acesso em> 27 ago. 2021.

VALÉRIO, Cristiane Quebin et al. A biopirataria: problemas da humanidade.  Trabalho apresentado no 2º Congresso Internacional de Tecnologias para o Meio Ambiente – FIEMA, Bento Gonçalves, 2010.  Disponível em:<https://siambiental.ucs.br/congresso/getArtigo.php?id=37&ano=_segundo>. Acesso em: 25 ago 2021.

Imagem da capa: Pinterest. Disponível em:<https://br.pinterest.com/pin/598838081707413296/>. Acesso em 26 ago. 2021.

 

 

 



 

2 comentários sobre “Quando nem se falava em biopirataria, o Brasil já tinha sido vítima dela

  1. Este texto me fez lembrar de outro caso de biopirataria recente. O do cupuaçu! Os japoneses patentearam o nome cupuaçu (veja o absurdo) e também do cupulate (cupuaçu com chocolate), que já era fabricado pela população local há anos! O nome da fruta de orígem INDÍGENA sendo registrado como marca japonesa e o cupulate sendo reconhecido internacionalmente como criação japonesa doeu no coração.

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