Descarga de hormônios, uma nova preocupação ambiental

O conhecimento científico e o instrumental para pesquisa vêm se ampliando ao longo do tempo e atualmente é possível fazer análises de substâncias e compostos químicos que não eram detectados no passado.  Passam a ser identificados os denominados componentes emergentes, micropoluentes de baixa concentração, na ordem de nanogramas ou picogramas.

Dentre os contaminantes desse tipo e que começam a preocupar, ao serem encontrados na água, estão os interferentes endócrinos, especialmente os  hormônios sexuais femininos,  de origem natural,  produzidos pelo organismo animal, ou sintética, produzidos para fins terapêuticos na saúde humana ou animal, como reposição hormonal ou como método contraceptivo, os anticoncepcionais. 

O que preocupa é o destino desses produtos à base de hormônios estrogênicos, incluindo seus resíduos, vindos do processo de metabolização do organismo” (3).

Isto porque nem sempre os processos de depuração de esgoto, diluição dos poluentes e de purificação da água conseguem eliminar os resíduos de hormônios. Quantidades significativas ficam sem remoção nas estações de tratamento e posteriormente são despejadas em águas superficiais (3). Desse modo, o esgoto bruto e seus efluentes de unidades de tratamento são as principais vias de deposição dos contaminantes emergentes nos recursos hídricos (3). 

Tratando especificamente de anticoncepcionais, embora sua concentração seja baixa e boa parte desses contaminantes seja biologicamente degradado na natureza (3),  é fato que a participação da mulher no mercado de trabalho levou a mudanças na programação familiar quanto ao número e momento de ter filhos.  Como consequência, a presença desse hormônio sintético na água aumentou quantitativamente, posto que é excretado pela urina e lançado na rede de esgoto, a qual vai desembocar em rios e oceanos. Os efeitos de sua presença nos recursos hídricos passam a ser estudados, como a feminilização de peixes machos (5-8) e outras alterações no funcionamento biológico de seres vivos (3). 

 É preciso lembrar que  “As estações de tratamento d’água (ETAs), basicamente, trabalham para retirar sua turbidez e torná-la potável. Elas têm uma capacidade limitada de remoção desses contaminantes, pois foram projetadas numa época em que não existia essa demanda”, explica o  professor Eduardo Bessa Azevedo, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP (2) . 

Também podem ser classificados como componentes emergentes outros fármacos prescritos para os seres humanos e que causam desequilíbrios ambientais, como os antibióticos, analgésicos, antidepressivos e drogas para combater o câncer. Entre os medicamentos veterinários, também se encontram hormônios, antibióticos e parasiticidas, como aponta relatório da Agência Federal Ambiental da Alemanha, mencionado pela BBC (6). Como ressalta a pesquisadora Kathryn Arnold, da Universidade de York, na Inglaterra, para a BBC, “São variações pequenas e sutis mudanças que vão se somando e, no fim, podem comprometer a sobrevivência de uma espécie” (6).

Por isto, a importância do investimento em pesquisas científicas, para possibilitar análises laboratoriais cada vez mais complexas, que possam  detectar os componentes emergentes nas amostras, ainda que em quantidades ínfimas.  Igualmente, para ampliar os objetos dos estudos, investigando a respeito dos impactos dos componentes emergentes  no ecossistema e saúde das espécies (3).

De mesmo modo, investir em  processos completos e eficientes de retenção ou remoção desses resíduos nas estações de tratamento de esgoto,  para que tais componentes emergentes não sejam liberados nos recursos hídricos. Na mesma esteira,   implantar esgotamento sanitário onde inexistente, e desde logo, de maneira eficiente e com capacidade para viabilizar a remoção desses poluentes, para evitar que a descarga de águas residuais e o despejo inadequado nos efluentes venha a contaminar o meio ambiente e as águas superficiais (3)

Outro ponto a ser  resolvido é a reduzida legislação que trata dessa classe de poluentes ou contaminantes. Como lembra o  professor Eduardo Bessa Azevedo, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, “o Brasil ainda não possui uma legislação que determine quantidades seguras desses contaminantes na água” (2).  Nem todos contaminantes estão incluídos em programas de monitoramento de rotina de órgãos de meio ambiente e saúde, tampouco inseridos em normativas ou legislações de controle ambiental (3). É preciso normatizar e passar a monitorar e fiscalizar. 

Por fim, também é necessário que a indústria farmacêutica  projete as drogas e outros produtos farmacêuticos para serem eficientes em doses cada vez mais baixas e degradáveis ou biologicamente inativos no seu descarte,  para que afetem o menos possível não só a saúde humana, mas também ao meio ambiente.

Saiba mais:

1 CHRISTANTE, Luciana. Descarga de Hormônios, UNESP Ciência. Mar. 2010. Disponível em:<http://unespciencia.com.br/2010/03/01/poluicao-06/>. Acesso em 08 mar. 2021.

2 CONTAMINANTES Emergentes: Difíceis de remover nas estações de tratamento de água, fármacos, cosméticos e outros compostos contaminam recursos hídricos. Portal EcoDebate. Disponível em:<https://www.ecodebate.com.br/2019/07/25/contaminantes-emergentes-dificeis-de-remover-nas-estacoes-de-tratamento-de-agua-farmacos-cosmeticos-e-outros-compostos-contaminam-recursos-hidricos/>. Acesso em: 8 mar. 2021

3 LIMA, Jerri Adriano Vieira; STACHIW, Rosalvo, MILITÃO, Julio Sancho Linhares Teixeira. A problemática ambiental dos poluentes emergentes: possíveis impactos por hormônios sexuais. Nature and Conservation. Jan. a abr. 2019, v. 12, n. 1, p. 66-74. Disponível em:<https://sustenere.co/index.php/nature/article/view/CBPC2318-2881.2019.001.0007>. Acesso em 09 mar. 2021.

4 O QUE são contaminantes emergentes? Portal Saneamento Básico, 24 out. 2018. Disponível em:<m>. Acesso em 8 mar. 2021.

5 PESQUISA revela que contaminação de rios e mares por poluentes químicos reduz populações de peixes. Portal EcoDebate. Disponível em:<https://www.ecodebate.com.br/2018/06/13/pesquisa-revela-que-contaminacao-de-rios-e-mares-por-poluentes-quimicos-reduz-populacoes-de-peixes/>. Acesso em 08 mar. 2021.

6 REMÉDIOS na natureza faz peixes machos ficarem femininos. BBC News Brasil, 17 out. 2014.  Disponível em:<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141017_remedios_natureza_pu>. Acesso em: 8 mar. 2021

7 SCHIAVONI, Eduardo.  Descarte irregular de remédio faz peixes perderem capacidade de reprodução, mostra pesquisa. Portal Uol, Campinas, 10 jan. 2013. Disponível em:< https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/01/10/descarte-irregular-de-remedio-faz-peixes-perderem-capacidade-de-reproducao-mostra-pesquisa.htm>. Acesso em: 8 mar. 2020.

8  20% dos peixes do sexo masculino nos Rios do Reino Unido agora é “transgênero” devido ao descarte de produtos químicos. Portal EcoDebate. Disponível em:<https://www.ecodebate.com.br/2017/07/07/20-dos-peixes-do-sexo-masculino-nos-rios-do-reino-unido-agora-e-transgenero-devido-ao-descarte-de-produtos-quimicos/> Acesso em 08 mar. 2021

9 CONAMA, Resolução n. 430, de 13 de maio de 2011. Dispõe sobre as condições e padrões de lançamentos de efluentes. Disponível em:<http://www2.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=646>. Acesso em 09 mar. 2021. 

10 BRASIL, Ministério da Saúde, Portaria nº 2.914, de 12 de dezembro de 2011. Dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Disponível em:<https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt2914_12_12_2011.html#:~:text=%C2%A7%201%C2%BA%20Recomenda%2Dse%20que,seja%20de%202%20mg%2FL.>. Acesso em: 09 mar. 2021.

Imagem da capa: Freepik. Disponível em<a href=”https://br.freepik.com/fotos/mao”>Mão foto criado por jcomp – br.freepik.com</a>

 

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